
Hoje me peguei vendo os trejeitos dela, nem parece que se passou tanto tempo. Tudo bem, sei que é um grande clichê ou um saco mesmo essa história de que nem parece que se passou tanto tempo, mas se há esta sensação, se a pessoa não está dissimulando pra conseguir algo em seu favor, então com propriedade, pode dizer que vem do âmago. E é causado pela intensidade de bons e inesquecíveis momentos ao lado de alguém querido, como Úrsula.
Ela é minha melhor amiga. Conhecemo-nos desde que tínhamos seis, sete anos e morávamos numa cidadezinha pequena, longe do centro. Depois estudamos no mesmo colégio, no primeiro e segundo graus, ambos prestamos vestibular pra Administração. Então, depois de formados, descobrimos que nossa paixão mesmo, desde pequenos, era o jornalismo. Artur, ela já falava com aquela voz risonha e suas covinhas na bochecha, é jornalismo, cara! Ninguém conta mentiras recheadas de verdades como nós!, e gargalhava a risada mais gostosa que já ouvi na minha vida.
Eu e Úrsula, provavelmente, já vivemos intensamente todas essas baboseiras que recebemos em powerpoints de e-mails, que versam sobre viver como se fosse seu último dia et cetera. Como aquele texto maravilhoso de um paraninfo de turma dos Estados Unidos, que fala do filtro solar, que, no fim das contas, ninguém usa. Úrsula mesmo vive falando, Artur, usa essa porcaria, senão tua cara vai ficar toda manchada e cheia de rugas no futuro. Não vou ter um amigo com cara de velho, não! Mas pra mim, usar esses creminhos é coisa de mulher. Ou de gay. Ou de metrossexual, o que dá na mesma. Homem de verdade só usa creme quando em criança, e só porque nossas mães vivem falando das nossas pernas cinzentas. Por isso adorava quando ia pra casa do meu pai nos fins de semana, ele estava nem aí se a perna estava cinza, marrom ou preta. Meu pai, sim, nunca deve ter passado um dedo de creme no corpo, um excelente espécime de macho.
Às vezes acho que se eu e Úrsula não fôssemos amigos, acabaríamos por nos esbarrar na vida. São tantas as afinidades, que é como se ela fosse minha versão feminina. Ela compartilha da mesma opinião, mas diz, Artur, mesmo que você fosse minha versão masculina, e baixa os óculos escuros, olhando por cima deles, seria gay, porque amo demais ser mulher! E nessa hora, obviamente, começamos a discussão, porque Úrsula às vezes tem mania de me contar coisas íntimas que acontecem entre ela e as paqueras que arranja, como se eu fosse um desses amiguinhos viados dela. Fico puto com isso! Além de ser uma grandessíssimo ciumento. Então sei que ela faz de propósito mesmo.
Sabe, amigos, mas amigos de verdade, como eu e Úrsula somos, necessitam de desvelo. Vejo tanta coisa estranha em amizades por aí, nem parece coisa de amigo. Amiga que desaprova namorado da outra, mesmo esta estando feliz, amigo que deixa o outro na mão e acha que é só pedir desculpas, amigo que marca coisa e depois desmarca sem aviso ou satisfação, amiga que suja nome de amiga, amigo que conta segredos da amiga... Sabe, isso não é amizade. Amizade, como recebi uma vez por e-mail atribuindo à frase ao Chuck Norris, é, se você encontra seu amigo apanhando no meio de uma briga, primeiro você dá a voadora em quem está batendo, depois pergunta pra ele o que aconteceu. Amizade é irmandade, você trata como se fosse irmão de sangue mesmo, vindos do mesmo ventre. Se bem que, com ligação sanguínea ou não, está tudo desvirtuado. Filho que mata mãe e enterra no quarto, pai que enfia agulhas no corpo da filha, mãe que adota a filha e trata como boneca, xingando e batendo na cara. O sentido fraterno de família e amizade se perdeu. E acho que quanto mais eu e Úrsula a isso assistimos, mais damos valor em nossa amizade. Nossas brigas duram no máximo um turno. Uma vez Úrsula disse, Artur, tô bem, não! Você fez a lambança comigo, agora espere que passa, mas não é instantâneo! Entretanto, por ter conhecido muitas mulheres na minha vida – e se Úrsula estivesse aqui, falaria que isso é um eufemismo pra eu não dizer que sou galinha –, sei que elas, quando se emputecem, tem de esperar aí uns dois dias, no baixo, até a cabeça ficar boa. E eu, ansioso que sou, quando acontece isso, já compro um girassol bonito e mando entregar pra ela. Úrsula adora Girasol. Um babaca de um ex-namorado dela me ligou uma vez perguntando qual flor ela gostava mais. Cara força-barra!, pensei, mal me conhece e já está bajulando, querendo minha confiança. Na hora disse que era o Crisântemo. Ela odeio Crisântemos, acha que é flor feita só pra jogar em defunto. Ela descobriu, mas neguei até a morte, dissimulei feio mesmo. Mas quando o faço, é de um jeito tão comicamente canalha que ela, em meio a risos, disse que eu precisava ver a cara nada fotogênica do namorado, se achando o maioral, entregando a flor que ela mais detestava. Hehehehehe.
De qualquer forma, como em toda amizade, na nossa havia aqueles segredos íntimos, que, como disse Clarice Lispector (bom, acho que foi ela mesmo que li, num desses sites de coletâneas literárias), “Há segredos que não devemos contar nem a nós mesmos.”. Úrsula achava isso uma grande balela, mas ela é suspeita, não gosta de Clarice. Artur, se há segredo é porque o amigo não confia tanto no outro assim! Mas eu dizia pra ela que tinha nada a ver. E ela dizia tinha, e eu, não tinha, ela, tinha, e eu não tinha, até convencê-la, como quando éramos pequenos. Falei que, de verdade, havia um segredo o qual nunca contara a ela, que aquilo estava me engasgando há tempos. Daí, pisciana, logo, curiosa tenaz, Úrsula começou a elucubrar um milhão de segredos. Artur, sei que você beijava minha bochecha quando tínhamos oito anos e eu dormia em sua casa para assistirmos desenhos, e eu negava de forma veemente, mesmo ela dizendo que gostava, que achava um carinho bonitinho. Ah, Artur, então foi a coisa do Crisântemos com o Lex, aquele meu namorado filhinho de papai, e também disse que não. Assim não descobrierei nunca, dizia fazendo uma feição que só ela atingia, um meio sorrir, meio entristecer, poxa, sei das verdades e você não me conta. Úrsula, acho que jamais saberá o que é, eu disse. E ela continuou a empreitada dentre inúmeros casos, os quais neguei todos. É incrível a quantidade de mentirinhas brancas – aquelas que não fazem mal – que nossos amigos verdadeiros sabem de nós.
Úrsula, vendo que nada conseguiria, começou a me irritar: Artur, aposto que você ainda é virgem, que nem mesmo aquela mocreiazinha da sala, assim que entramos na faculdade, você conseguiu faturar, de tão arame liso que é. Eu realmente não estava disposto a contá-la meu segredo, falei aquilo só pra provocar-lhe curiosidade, depois inventaria qualquer besteira e pronto. Mas Úrsula me conhece, sabe que mexer com minha virilidade é golpe baixo. E usou a expressão arame liso pra fazer referência a uma vez, que eu disse que o namorado dela era arame liso, já que só a cercava, mas não espetava. Lembro que Úrsula respondeu, irônica, com aquele cinismo feminino que odeio e que ela faz como mulher alguma, Artur, Artur, Artur... Tsc, tsc, tsc, tsc. Anderson é arame liso porque é eletrocutado, ninguém precisa saber que espeta, mas na hora que encosta, ai, não gosto nem de lembrar do choque. Fiquei tão puto, mas tão puto, porque eu achava que ela ainda era virgem, e nesse dia descobri que ela não mais o era. Por isso ela usou a expressão. Irritei-me e disse tá bem, Úrsula, tá bem. Eu conto. E titubeei, mas falei. É que eu te amo. Ela, ia quase respondendo, quando emendei, como homem, Úrsula, amo você como homem. Ela ficou calada, me olhando por breves segundos, desfez a feição: Artur, você é um filho da puta mesmo! Me enrolou o tempo inteiro pra isso? Ela me abraçou e caiu na gargalhada. Imagina, o Artur dizendo que me ama, ela falava sorrindo e eu reverberava, também sorrindo. Ela sugeriu que fôssemos ao sushi, comemorar o fim do nosso único segredo. Artur, eu pago, você merece, devia ser ator! E tornava a gargalhar. Só que ela mal sabe que o maior segredo, não contei: que era verdade.
*Conto meu postado originalmente na Confraria dos Trouxas.