sábado, 26 de maio de 2012

DESTRAMBELHADA


Quando ela samba, todo mundo gargalha. Dizem que ela não tem coordenação, jeito ou compasso. É muito feio o jeito que ela samba, reconheço. Mas mesmo assim, é o samba sambado mais lindo do mundo.

Daí que nesse dia, o pessoal na quadra da escola de samba ria muito, apontava, tirava sarro da minha amada. Tadinha, ela nem percebia e persistia sambando seu samba péssimo. Rir dos outros não é legal, pensei comigo. Sempre riram de mim porque nasci com pés pequenos, me chamavam de Pezinho, culpa de uma deformação que tenho porque minha santa mãezinha - que Deus a tenha - tentou me abortar. Não tenho raiva dela por isso, mamãe foi estuprada, nunca conheci o filho da puta do meu pai, pra sorte dele. Mas eu dizia que eles riam de mim, e isso só acabou quando virei gerente da boca. Hoje, que sou dono do morro, as pessoas beijam meus pés, beijam os pés do Pezinho. Por isso que eu dizia que não é legal malhar os outros. E eles caçoavam do meu amorzinho, aquilo estava me  irritando, irritando, irritando. Não aguentei, tirei o oitão da cintura e dei dois tiros pro alto. Foi uma correria e uma gritaria do caralho, o galpão ficou vazio.

Agora sim, meu amor! Pode sambar, a quadra é toda sua!, eu disse. Mas ela não quis, "Não tem graça alguma sambar sem ninguém pra assistir como eu fico graciosa...", disse minha fufuquinha com um jeito triste. Fui lá fora imediatamente, arranjei uns transeuntes e falei pra eles entrar. Talvez eles tenham visto o ferro na minha cintura, mas não ameacei eles em momento algum. Então, liguei o samba enredo da escola, meu benzinho começou a sambar e todo mundo aplaudiu! Olha lá, toda destrambelhada a bichinha. Ai, ai... Como eu amo essa mulher!



Foto: Latin Stock Photos

sábado, 21 de janeiro de 2012

CECÍLIA

Acho que vocês se lembram da Confraria dos Trouxas, certo?

A Confraria foi um blogue que eu e outros amigos criamos. Escrevíamos em pares, cada um postava em um dia da semana algo sobre o amor e suas vertentes.

A rotina não mais me deixou levar isso adiante, assim como alguns dos outros bons escritores, que deixaram o blogue. Mas outros excelentes novos autores continuaram e desenvolveram ainda mais o projeto. Os temas semanais agora são definidos por músicas.

A Flávia Queiroz, meu par de escrita na minha época de Confraria, ainda escreve no blogue. E me convidou a escrever neste mês, em que os escritores do blogue estão em férias. E para minha alegria, com base na lindíssima música Eu te amo, do Chico Buarque e Tom Jobim. Podem me apedrejar: confesso, não a conhecia.

O resultado foi meu mais novo conto, Cecília, o qual segue trecho abaixo:

"Ela é linda. De uma boniteza tamanha que não adiantaria tentar explicar, pareceria descrição clichê de filme água com açúcar. Uma fotografia do seu rosto seria capaz de causar uma ponta de dor a qualquer um. Em mim, sua beleza enquadrada doía, me trespassava a alma. E minha paixão por ela sangraria até me esvair."

MEU LIVRO, NA SEGUNDA QUINZENA DE MARÇO

Desde sempre, escrevi neste blogue, a Coluna Fantasma, como ensaio para um livro que, um dia, talvez publicasse.

Bom, esse dia chegou. A Editora Novitas apostou na minha escrita, publicarão meu livro de contos, Tapas da Verdade.

Aqui está a capa linda que eles fizeram. Em breve falarei mais sobre o lançamento. Mas pelo que se encaminha, a noite de autógrafos será na segunda quinzena de março, em Brasília.

Estou muito feliz e tenho certeza de que todos que me acompanham desde sempre por aqui também compartilha dessa minha felicidade. Agora, só me falta plantar uma árvore. \o/

Abraços, Fernando.

ACORDEI TATUADA

Olá, pessoal. Este blogue está voltando à temporada de novos contos.

Pra começar, tem conto meu postado há algum tempo, no 4 Pecados, blogue erótico de primeira. Prestigiem, acho que gostarão de me ver escrever como se fosse uma mulher.

Segue abaixo trecho do conto:

"Lúcida, autoexplico; é que teu sexo não come, mas mastiga, devora o meu. É a sensação de torpor da tua penetração que me é ópio."

Acordei Tatuada, continho erótico meu no 4 Pecados. Prestigiem, leiam, comentem.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

AS CALCINHAS DA PATROA

Conversavam Matilde e seu marido Ferreira com o ginecologista em seu consultório. É que Matilde estava com coceiras tremendas ali, na peteca. E o doutor Domingos, médico de confiança da família, após esclarecer e investigar as possíveis causas da coceira, descobriu morar com eles uma diarista bem apessoada, mulher do caseiro.

Acontece que nessa hora, a troca de gentilezas entre Matilde e Ferreira era tanta, que o doutor Domingos precisou mediar as agressões verbais temendo o pior. Ferreira, com seu jeitão de banana, berrava, se defendendo, enquanto Matilde bradava ao marido uns vinte palavrões sem repetir um sequer, e em seu tom mais estridente. Matilde tanto fez, quis e exigiu que, mesmo sem Ferreira concordar, mandou chamar a diarista ao consultório para uma acareação.

Aurora chegou ao consultório vinte minutos depois, extremamente constrangida. Questionada pelo médico sobre o assunto, confessou, chorosa, ter vestido as calcinhas da patroa. A diarista enxugava as lágrimas se desculpando e dizia tê-las surrupiado porque achava as peças de Matilde coisa fina, de madame e também por querer muito agradar seu marido Ezequiel, pois suspeitava de uma traição. Foi muito barraco para pouco parágrafo, mas resumindo, a patroa só acreditou na história quando lembrou do sumiço misterioso de algumas de suas lingeries. E também por ver uma das suas em Aurora, durante a querela feita no consultório, lhe empurrando contra a parede e puxando a saia, antes de a diarista ir embora descompensada.

Saíram do consultório, ela com uma receita e a cara no chão e ele, autointitulando coitado, injustiçado. Matilde, para limpar sua barra e agradá-lo, falou que ia à mercearia comprar algo para lhe fazer um bolo. Assim que ela saiu, Ferreira correu para falar com Aurora. Entre desculpas, risos, beijos e suor, lhe deu os parabéns pela sacada da calcinha. Matilde, por sua vez, desviou o caminho na volta da mercearia e foi ao encontro do caseiro Ezequiel, marido de Aurora. E o ameaçou demitir caso não usasse camisinha com a esposa. Vestiu a roupa e catou a sacola de mandiocas. Tinha um bolo para fazer.

sábado, 27 de agosto de 2011

BOLETIM DE OCORRÊNCIA

Entrou na sala logo atrás do oficial, sentou–se em uma cadeira que foi apontada pelo delegado calvo, que estava atrás da grande mesa de madeira com um cigarro no canto da boca.

– O nome do senhor?

Ele pigarreou, limpando a garganta.

– Arh, arhan! Fábio Rosa Souto.

Um oficial começou a redigir o depoimento em um velho computador, em uma mesa contígua.

– Profissão?

– Escritor.

O delegado olhou por cima dos óculos e deixou a cinza do cigarro cair em si, sem se importar.

– O que anda acontecendo, senhor Fábio escritor? Conte–me o que o trouxe aqui.

– Eu queria fazer uma denúncia por perseguição, é assim que se chama? Perseguição? Eu não entendo muito de direito então…

– Quem está perseguindo o senhor? – interrompeu o delegado abruptamente.

– O nome dele é Agenor.

O delegado deu uma longa baforada no cigarro, movimentou uma pilha desarrumada de papeis de cima da mesa procurando por algo. Achou um maço barato de cigarros, acendeu um na brasa do primeiro que foi jogado para trás da mesa, no chão.

– E por que o senhor Agenor está perseguindo o senhor?

Fábio suspirou e se ajeitou na dura cadeira.

– Então, ele acredita que estou tendo um caso com a esposa dele.

– E o senhor está?

Fábio pigarreou novamente.

– Arh, arhan! Isso é, bom… digo… é mesmo relevante? Adultério não é crime, é?

Novamente o delegado olhou por cima dos óculos para Fábio, deu mais uma longa baforada, olhou para o agente que redigia o depoimento.

– Então o senhor, como dizem os populares, deu uma furada na esposa do senhor Agenor, que obviamente ao descobrir o fato… Aliás, como ele descobriu?

– Não sei, não ficou claro. Talvez uma mensagem de celular, uma carta ou…

– Ou o quê, senhor Fábio escritor?

– Ou uma cueca minha, no quarto dele…

O delegado deu um tapa na mesa e levou a outra mão até a testa em um movimento reprovatório.

– O senhor largou uma cueca sua na casa do homem depois de deitar–se com a esposa dele? É isso que eu entendi?

– Foi, mas foi completamente sem querer…

– Ok, e o que o senhor Agenor anda fazendo que incomodou o senhor?

– Ele tem ligado no meu trabalho, na minha casa, no meu celular! Fazendo ameaças, doutor! Ameaças! E uma das vezes que eu liguei para Carla, ele atendeu e disse que iria até o meu serviço pra ter uma conversinha comigo se eu…

– Se você o quê, senhor Fábio? Se o senhor comesse a mulher dele de novo? Ou se o senhor largasse outra cueca em cima dos lençóis do homem?

Fábio olhou para o delegado com olhos arregalados e respondeu com incredulidade à cena que visualizara.

– A, a, acho que, que as duas co, coisas… Ou ele pro, va, vavel, mente nã, não se resig, resignou em ser tra, traído.

Uma cinza enorme caiu da ponta do cigarro do delegado. E o agente, que registrava o depoimento, virou a cadeira, mandou imprimir o depoimento para revisão e também acendeu um cigarro, prevendo que nada mais precisaria acrescentar.

– Olha só senhor Fábio, o senhor pode registrar uma ocorrência de Perturbação de Tranquilidade contra o senhor Agenor, uma vez que não houve ameaça à sua integridade física. Eu vou registrar todo o seu depoimento, vamos imprimi–lo na forma de um documento e o senhor assina esse documento. Depois vamos procurar pelo senhor Agenor para que ele possa dar a versão dele da história, com detalhes, inclusive onde ele encontrou a tal cueca. E depois ele assina também. Ele vai assinar um documento oficial, do Departamento de Polícia, que confirma que ele é um belíssimo corno graças ao senhor.

O delegado concluiu com um sorriso irônico. Fábio ficou em silêncio por alguns segundos, com os olhos ainda mais arregalados.

– Da maneira como o senhor colocou, não parece uma boa ideia, né?

– Não parece é? Eu não disse coisa alguma. Aqui estou a serviço da população e de cidadãos que procuram a lei, como o senhor. – Rebateu o delegado, com sarcasmo escorrendo pelos lábios.

– Bem, acho que não precisamos continuar com isso, não é mesmo? Vai que as coisas fiquem piores se os senhores ligarem pra ele, né… Mas obrigado pelo seu tempo mesmo assim. – Fábio foi se levantando lentamente.

– Como o senhor quiser. E está tarde, senhor Fábio. Volte para casa com cuidado, viu…

O delegado desfez o sorriso sarcástico e meneando a cabeça negativamente procurava por outro maço de cigarros em cima da mesa. Fábio saiu lentamente, olhou para os dois lados antes de deixar a delegacia e foi correndo em direção ao carro estacionado. Saiu cantando pneus e quase bateu no portão enquanto olhava pelo retrovisor, com a sensação de estar sendo observado.

– É cada uma que me aparece! Você viu isso? – O delegado pediu o isqueiro pra o oficial que redigira o documento. E continuou:

– Depois eu lavraria esse documento, chamaria as partes e o que aconteceria? Um corno homicida dentro da minha jurisdição!

– Então posso deletar o documento, delegado?

– Deve, né, Haroldo, deve! E Zeca! Ô Zeca! Acorda, infeliz! Todo dia chego nesse Departamento e tem uma pilha de processos na impressora! Comece agora a cumprir as demandas de hoje, ligar pros interessados!

Zeca, com a cara amassada do cochilo que tirava em cima da mesa, foi até a impressora cumprir seu trabalho. E só encontrou um único processo para ligar para as partes, de um tal Agenor.

***

Conto baseado em história real escrito com o também apreciador das escrita do cotidiano, um cara do seleto clube, Cadu, do blogue Cadu no Improviso. Sigam-no: @cadunoimproviso.

Foto: Getty Images

terça-feira, 5 de abril de 2011

SONHOS

O Marcelo Mayer e o Glauco Guima têm um projeto conjunto, o Julia & Pedro, lincado há muito tempo na seção Blogues que Admiro desta Coluna Fantasma. O primeiro escreve as redações e o segundo, as ilustrações destas.

Por lá o que está sempre em voga são diálogos ou histórias da vida de um casal igual a qualquer outro: com muitas alegrias, mas também, frustrações diretamente proporcionais.

Recentemente o blogue completou um ano e eles fizeram um concursinho cultural de microcontos para comemorar. O vencedor teria o microconto ilustrado e levaria um pocket pie - que há pouco tempo ainda não sabia o que era.

Bom, meu microcnto foi humildemente o vencedor. Segue abaixo a ilustração e o microconto. Espero que gostem da ilustração tanto quanto eu.

P.S.: sou vascaíno roxo, mas obviamente o Glauco deve ser Corinthiano.



- Meus sonhos... Paris, concluir o mestrado, casa com piscina, filhos. E você?
- Um só: que meu time vire esse jogo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

LIÇÃO DE VIDA

Era quase meio-dia, quando abriu os olhos vendo tudo embaçado. Assim que sua visão se estabilizou, e sua mulher e filhos pararam de chorar, abraçando-o na cama da UTI, ele começou a recordar alguns nacos do acontecido na noite anterior. Um assaltante havia entrado em sua casa, e ele, sonolento atendendo ao pedido da mulher, foi averiguar o andar de baixo. Veloso se assustou com a presença do mau elemento na própria casa, e o ladrão, nada tarimbado, também no susto, disparou com o revólver calibre vinte e dois contra o dono da casa.

Assim que ele acordou e a notícia se espalhou aos amigos ávidos por informação, não tardou chegarem visitas. Veloso, com o semblante meio mudo, estava calado até então, e abriu a boca para resmungar: Hoje temos que torcer pra sermos assaltados por profissionais! É o fim dos tempos! Suspirou e indagou pelo bandido: E o bandido? Pegaram o bandido? Pegaram sim, Veloso. Parece que o cara foi encontrado hoje cedo num boteco, bêbado igual um gambá!

Veloso ficou perplexo com a resposta e se absteve do resto da conversa, que logo preencheu o quarto com inúmeras fofocas do filho de fulano que virou ladrão e assaltou fulana, que o carregou no colo; de sicrano que quase morreu quando foi assaltado por um pivete; que o governo não faz nada a respeito e outras histórias corriqueiras sobre a violência na cidade. Ficou enfadado da conversa e ligou a TV, mas em todos os canais só havia notícias de uma menina que fora jogada do sexto andar pelo pai. Isso já virou uma minissérie! É o fim venderem notícias com tal tragédia! E após exclamar consigo, sentiu-se entediado e adormeceu.

Veloso nem parecia ter passado por cirurgia para extirpar o projétil do corpo. O acontecimento foi considerada pelos médicos como um desses milagres que fazem qualquer ateu crer em Deus. A bala do vinte e dois, como foi disparada a queima-roupa, não atingiu sua velocidade final e assim, não teve força para fazer um grande estrago, ficando alojada um palmo acima do coração, no ombro esquerdo de Veloso.

Dia seguinte, o quarto de Veloso não tinha tantas visitas como quando acordara após o procedimento cirúrgico. E no finzinho da tarde daquele dia, Veloso pôde voltar para casa. O tom da conversa no caminho era de felicidade por ele estar bem, além das súplicas de sua esposa, dizendo que o marido estar vivo era uma dádiva divina, que ele deveria aproveitar mais a vida, que não podia ser tão carrancudo, pois vivia reclamando, que aquilo fazia mal et cetera. Em suma: queriam um Veloso mais bem humorado. Ele respondeu que ela tinha toda a razão e que tentaria mudar. Algo estranho, já que ele nunca concordava com as coisas, dificilmente dava o braço a torcer. Como não bastasse essa estranheza toda, ainda pediu ao filho, que dirigia, para
passar em um centro comercial. Disse a todos para aguardarem no carro, sob protestos deles, pois não queriam deixá-lo sozinho. Voltou após algum tempo com uma sacola. Foi questionado sobre o embrulho, entretanto, disse que era besteira, que depois mostrava, tratou de encostar a cabeça no vidro e dormiu, enquanto a família tornava a lhe aplicar sermões.

À noite, jantaram em família. Refletiram sobre como a vida pode levar alguém querido de uma hora para a outra, que o pai de família ali sentado poderia não estar mais entre eles. E aí foi um rio de lágrimas, até Veloso, avesso ao choro, deixou o pranto rolar, tamanha comoção.

Na hora de deitar, perguntou a esposa se poderia dormir sozinho no primeiro dia, o ferimento ainda doía e ele tinha medo que dormindo com ela, viesse a encostar o local ferido durante o sono, ao que foi prontamente atendido. De manhã, bem cedo, esposa e filhos tomavam o café-da-13manhã, e repentinamente, ouviram um estrondo na casa, semelhante a um tiro, e ecoou do andar de cima, para onde subiram correndo em desespero.

Quando abriram a porta do quarto de hóspedes para ver, lá estava o corpo de Veloso todo sujo de um rubro indescritível. A cabeça pingava e havia uma gosma espalhada por toda ela, além do travesseiro. Ele estava deitado de bruços, a mão direita embaixo do travesseiro, e junto a ela, um revólver calibre trinta e oito. Suicídio não parecia, pois a arma não estava presa a mão. Talvez ficara traumatizado com o assalto, resolveu comprar uma arma quando pediu para passarem no centro comercial, para dormir com ela em baixo do travesseiro, e, devido a sua imperícia, poderia ter esquecido de travá-la, logo após carregá-la. A cena dava asco, sua filha e esposa berravam, o filho chorava menos que elas, embora fosse o suficiente para molhar todo seu rosto. Passou em segundos na sua cabeça que seu pai havia escapado de uma morte fatal por arma de fogo e agora poderia ter se matado sem querer por dormir com uma embaixo do travesseiro. Uma grandessíssima ironia. Mesmo assim, o filho era o que tinha mais condições psicológicas no recinto. Foi ele quem se aproximou do pai – chorando e tremendo – e tocou lhe o corpo.

- TCHARAN!

O pai gritou abrindo o olho. A filha saiu correndo e gritando pelo corredor, a mãe desmaiou e a calça do filho jorrava. Veloso pulou da cama.

- Ué, gente, o que é isso? Vocês não queriam que eu tivesse bom humor? Então, é tudo mentirinha, ó! Primeiro de abril!

segunda-feira, 28 de março de 2011

DECIDIDA

Gérberas, crisântemos e lírios de diversas cores, além de belíssimos copos-de-leite enfeitavam o arranjo. Não obstante toda a beleza floral, esta ainda foi envolta de forma magistral em papel bem adjetivado que apenas as floriculturas tradicionais usam. Ela se refez da surpresa, agradeceu ao entregador, fechou a porta e pegou seu telefone celular.

Em um bistrô do outro lado da cidade, após fazer uma ligação para a floricultura e saber que ela recebera, sim, o buquê a mais de uma hora, teve a certeza de que ela estava com mais raiva do que nas vezes anteriores. Largou então o livro que lia e partiu para o plano bê: começou a rascunhar um poema em um guardanapo.

Enquanto isso, ela olhava as flores e pensava. Pensava e olhava as flores. Andava de um lado ao outro e dizia em voz alta e pausadamente para mais ninguém no apartamento, como se despetalasse uma flor em brincadeira de bem-me-quer ou mal-me-quer: Ligo ou não ligo? Ligo ou não ligo? Ainda com o telefone em mãos, discou com certa convicção, mas mudou sua idéia original e ainda titubeando, ligou para sua melhor amiga.

- ...e foi isso, amiga. – Concluiu a explicação, resignada.
- Ai, homens! Por que nos relacionarmos com eles é tão complicado? Eles sempre fazem as
piores lambanças e depois que levam um pé na bunda, vêm abanando o rabinho!
- É! É exatamente isso! Então que aquele cachorro vá abanar o rabinho pras cadelas dele! Odeio
ele! Odeio ele! Odeio ele!
- Tá, mas esse ódio vai passar. E quando isso acontecer? Você vai voltar com ele?
- É louca! De forma alguma! Não volto, não volto, não volto! – Fez um breve silêncio e então
tenramente suspirou:
- As flores são tão lindas..

domingo, 20 de março de 2011

AMOR AMIGO

Hoje me peguei vendo os trejeitos dela, nem parece que se passou tanto tempo. Tudo bem, sei que é um grande clichê ou um saco mesmo essa história de que nem parece que se passou tanto tempo, mas se há esta sensação, se a pessoa não está dissimulando pra conseguir algo em seu favor, então com propriedade, pode dizer que vem do âmago. E é causado pela intensidade de bons e inesquecíveis momentos ao lado de alguém querido, como Úrsula.

Ela é minha melhor amiga. Conhecemo-nos desde que tínhamos seis, sete anos e morávamos numa cidadezinha pequena, longe do centro. Depois estudamos no mesmo colégio, no primeiro e segundo graus, ambos prestamos vestibular pra Administração. Então, depois de formados, descobrimos que nossa paixão mesmo, desde pequenos, era o jornalismo. Artur, ela já falava com aquela voz risonha e suas covinhas na bochecha, é jornalismo, cara! Ninguém conta mentiras recheadas de verdades como nós!, e gargalhava a risada mais gostosa que já ouvi na minha vida.

Eu e Úrsula, provavelmente, já vivemos intensamente todas essas baboseiras que recebemos em powerpoints de e-mails, que versam sobre viver como se fosse seu último dia et cetera. Como aquele texto maravilhoso de um paraninfo de turma dos Estados Unidos, que fala do filtro solar, que, no fim das contas, ninguém usa. Úrsula mesmo vive falando, Artur, usa essa porcaria, senão tua cara vai ficar toda manchada e cheia de rugas no futuro. Não vou ter um amigo com cara de velho, não! Mas pra mim, usar esses creminhos é coisa de mulher. Ou de gay. Ou de metrossexual, o que dá na mesma. Homem de verdade só usa creme quando em criança, e só porque nossas mães vivem falando das nossas pernas cinzentas. Por isso adorava quando ia pra casa do meu pai nos fins de semana, ele estava nem aí se a perna estava cinza, marrom ou preta. Meu pai, sim, nunca deve ter passado um dedo de creme no corpo, um excelente espécime de macho.

Às vezes acho que se eu e Úrsula não fôssemos amigos, acabaríamos por nos esbarrar na vida. São tantas as afinidades, que é como se ela fosse minha versão feminina. Ela compartilha da mesma opinião, mas diz, Artur, mesmo que você fosse minha versão masculina, e baixa os óculos escuros, olhando por cima deles, seria gay, porque amo demais ser mulher! E nessa hora, obviamente, começamos a discussão, porque Úrsula às vezes tem mania de me contar coisas íntimas que acontecem entre ela e as paqueras que arranja, como se eu fosse um desses amiguinhos viados dela. Fico puto com isso! Além de ser uma grandessíssimo ciumento. Então sei que ela faz de propósito mesmo.

Sabe, amigos, mas amigos de verdade, como eu e Úrsula somos, necessitam de desvelo. Vejo tanta coisa estranha em amizades por aí, nem parece coisa de amigo. Amiga que desaprova namorado da outra, mesmo esta estando feliz, amigo que deixa o outro na mão e acha que é só pedir desculpas, amigo que marca coisa e depois desmarca sem aviso ou satisfação, amiga que suja nome de amiga, amigo que conta segredos da amiga... Sabe, isso não é amizade. Amizade, como recebi uma vez por e-mail atribuindo à frase ao Chuck Norris, é, se você encontra seu amigo apanhando no meio de uma briga, primeiro você dá a voadora em quem está batendo, depois pergunta pra ele o que aconteceu. Amizade é irmandade, você trata como se fosse irmão de sangue mesmo, vindos do mesmo ventre. Se bem que, com ligação sanguínea ou não, está tudo desvirtuado. Filho que mata mãe e enterra no quarto, pai que enfia agulhas no corpo da filha, mãe que adota a filha e trata como boneca, xingando e batendo na cara. O sentido fraterno de família e amizade se perdeu. E acho que quanto mais eu e Úrsula a isso assistimos, mais damos valor em nossa amizade. Nossas brigas duram no máximo um turno. Uma vez Úrsula disse, Artur, tô bem, não! Você fez a lambança comigo, agora espere que passa, mas não é instantâneo! Entretanto, por ter conhecido muitas mulheres na minha vida – e se Úrsula estivesse aqui, falaria que isso é um eufemismo pra eu não dizer que sou galinha –, sei que elas, quando se emputecem, tem de esperar aí uns dois dias, no baixo, até a cabeça ficar boa. E eu, ansioso que sou, quando acontece isso, já compro um girassol bonito e mando entregar pra ela. Úrsula adora Girasol. Um babaca de um ex-namorado dela me ligou uma vez perguntando qual flor ela gostava mais. Cara força-barra!, pensei, mal me conhece e já está bajulando, querendo minha confiança. Na hora disse que era o Crisântemo. Ela odeio Crisântemos, acha que é flor feita só pra jogar em defunto. Ela descobriu, mas neguei até a morte, dissimulei feio mesmo. Mas quando o faço, é de um jeito tão comicamente canalha que ela, em meio a risos, disse que eu precisava ver a cara nada fotogênica do namorado, se achando o maioral, entregando a flor que ela mais detestava. Hehehehehe.

De qualquer forma, como em toda amizade, na nossa havia aqueles segredos íntimos, que, como disse Clarice Lispector (bom, acho que foi ela mesmo que li, num desses sites de coletâneas literárias), “Há segredos que não devemos contar nem a nós mesmos.”. Úrsula achava isso uma grande balela, mas ela é suspeita, não gosta de Clarice. Artur, se há segredo é porque o amigo não confia tanto no outro assim! Mas eu dizia pra ela que tinha nada a ver. E ela dizia tinha, e eu, não tinha, ela, tinha, e eu não tinha, até convencê-la, como quando éramos pequenos. Falei que, de verdade, havia um segredo o qual nunca contara a ela, que aquilo estava me engasgando há tempos. Daí, pisciana, logo, curiosa tenaz, Úrsula começou a elucubrar um milhão de segredos. Artur, sei que você beijava minha bochecha quando tínhamos oito anos e eu dormia em sua casa para assistirmos desenhos, e eu negava de forma veemente, mesmo ela dizendo que gostava, que achava um carinho bonitinho. Ah, Artur, então foi a coisa do Crisântemos com o Lex, aquele meu namorado filhinho de papai, e também disse que não. Assim não descobrierei nunca, dizia fazendo uma feição que só ela atingia, um meio sorrir, meio entristecer, poxa, sei das verdades e você não me conta. Úrsula, acho que jamais saberá o que é, eu disse. E ela continuou a empreitada dentre inúmeros casos, os quais neguei todos. É incrível a quantidade de mentirinhas brancas – aquelas que não fazem mal – que nossos amigos verdadeiros sabem de nós.

Úrsula, vendo que nada conseguiria, começou a me irritar: Artur, aposto que você ainda é virgem, que nem mesmo aquela mocreiazinha da sala, assim que entramos na faculdade, você conseguiu faturar, de tão arame liso que é. Eu realmente não estava disposto a contá-la meu segredo, falei aquilo só pra provocar-lhe curiosidade, depois inventaria qualquer besteira e pronto. Mas Úrsula me conhece, sabe que mexer com minha virilidade é golpe baixo. E usou a expressão arame liso pra fazer referência a uma vez, que eu disse que o namorado dela era arame liso, já que só a cercava, mas não espetava. Lembro que Úrsula respondeu, irônica, com aquele cinismo feminino que odeio e que ela faz como mulher alguma, Artur, Artur, Artur... Tsc, tsc, tsc, tsc. Anderson é arame liso porque é eletrocutado, ninguém precisa saber que espeta, mas na hora que encosta, ai, não gosto nem de lembrar do choque. Fiquei tão puto, mas tão puto, porque eu achava que ela ainda era virgem, e nesse dia descobri que ela não mais o era. Por isso ela usou a expressão. Irritei-me e disse tá bem, Úrsula, tá bem. Eu conto. E titubeei, mas falei. É que eu te amo. Ela, ia quase respondendo, quando emendei, como homem, Úrsula, amo você como homem. Ela ficou calada, me olhando por breves segundos, desfez a feição: Artur, você é um filho da puta mesmo! Me enrolou o tempo inteiro pra isso? Ela me abraçou e caiu na gargalhada. Imagina, o Artur dizendo que me ama, ela falava sorrindo e eu reverberava, também sorrindo. Ela sugeriu que fôssemos ao sushi, comemorar o fim do nosso único segredo. Artur, eu pago, você merece, devia ser ator! E tornava a gargalhar. Só que ela mal sabe que o maior segredo, não contei: que era verdade.

*Conto meu postado originalmente na Confraria dos Trouxas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DISTÚRBIOS DO SONO

“Começou semana passada, quando acordei com uma dor no estômago. Então nos dias seguintes, acordei do nada com fortes pancadas no fígado e nas costelas. Sem falar das fisgadas que sinto frequentemente, hematomas nas coxas. Tomei a decisão de procurar vocês quando acordei com o olho doendo.”

“Roxo, o senhor quer dizer. Seu olho está roxo.”

“É, isso. Não é normal. Algum problema eu devo ter, né, doutor. Vai que é alguma dessas coisas que vivem passando nos documentários de sextas e domingos da tevê, tipo sonambulismo, sei lá.”


“Tá bem, tá bem. O senhor fará uma polissonografia na nossa clínica do sono e...”

“Poli o quê?”

“Polissonografia. Um exame que avaliará seu sono com variáveis fisiológicas e registros, quantificando e qualificando seu sono.”

“Variáveis fisiológicas?”

“São sinais que... Ah, olha, esquece. O exame dirá que distúrbio do sono você tem, ok. Mas por suas descrições deve ser terror noturno ou sonambulismo mesmo."

“Ah.”

“Bom, vou passar algumas recomendações pra sua noite aqui na clínica.”

“Noite na clínica?”

“Claro. Como acha que se faz um exame desses? Acordado?”

“Doutor, conheço meu gado. E esse negócio de passar a noite na clínica vai parecer pilantragem minha. Então vou trazer minha esposa aqui, daí o senh...”

“Você é casado? Tsc, tsc, tsc. Você não havia mencionado isso.”

“Ih, doutor! Então é por isso esse papinho aranha aí de dormir na sua clínica? Tá me estranhando?”

“Não, imbe...querido. Você não havia dito que era casado – provavelmente porque uma das secretárias incompetentes não preencheram sua ficha direito por preguiça ou coisa assim. Mas sendo casado, obviamente, você e a senhora sua esposa, dormem juntos.”

“Minha mulher anda mau-humorada comigo e esses dias tenho dormido no sofá. Mas sim, dormimos juntos, como todo casal que se suporta.”

“Tá bem, tá bem. E consegue se lembrar qual foi o sonho que teve antes de nos procurar?”

“Taí, faz algum tempo que tenho sonhado eroticamente com a pele branca das coxas e o bumbum polpudo da Celina, um grande amor.“

“Pfff. Esquece a clínica. Toma aqui, procure um ortodentista."

“Ué, mas... ‘Placa de acrílico. Pôr na boca todos os dias antes de dormir.’ Que diabo de receituário é esse, doutor?”

“Este é um aparelho pra evitar o ronco. E que tornará incompreensível para sua esposa o que você fala enquanto dorme.”

*A foto foi encomendada produzida e cedida gentilmente pela fotógrafa @drikalandim. Acessem o site da fotógrafa. Recomendo: drikalandim.com.

sábado, 18 de dezembro de 2010

MAIS UMA VEZ

- Queria viver assim o resto dos meus dias, meu amor.
- Eu também! Nós dois fazendo amor todos os dias! – Ele, rindo.
- Não seu bobo! - Ela respondeu em sorriso e aconchegou o nariz no cangote dele. Tô falando dessa sensação maravilhosa, de estar abraçado com quem amamos após fazermos amor.
- Eu sei, meu bem. - E a abraça com força, fechando os olhos, com leve sorrir e um suspiro tranquilo - Você diz assim calmo, sereno, felicidade completa, né.
- Isso! Sem contas, sem problemas...
- ...nem trabalho, filhos.
- Só eu e você, abraçadinhos, nesse lugar maravilhoso, sem mais ninguém no mundo. – Ela, fitando-o maliciosamente.
- Nos levantando da cama só pra caminhar nessa praia caribenha maravilhosa. – Arrebatando-a com um beijo, e emaranhando os corpos novamente.

Voltou a si ao percebê-la falando, falando e falando. Estavam mais uma vez brigando.

Resignou-se. Não achava possível que ambos sonhassem em separado, a exemplo do que acabara de fazer, distante, escutando-a verbalizar suas mesmas razões – ou não –, como se estivesse sonhando de fato. Tirou a aliança, pôs em cima da mesa, deus as costas e bateu a porta.

Dois dias depois, reataram.


***

No meu blogue atrevido e apimentado, A Escrita Salaz, há conto perverso novo: Quem Come Quem?

O conto retrata as perspectivas durante uma simples ligação ou encontro em que um casal esgrima em flerte no duelo da sedução. Segue trecho abaixo:

- (Homens... Só mudam a tática.) Ui! Obrigada pelo poeminha erótico. Não sabia que você era escritor.

Quem Come Quem? Meu novo conto perverso na Escrita Salaz. Prestigiem, comentem!
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